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27/9/2006
 

Assim como exporta jogadores de futebol, o Brasil tem espalhado igrejas e pastores evangélicos para todo o planeta. E eles têm se revelado verdadeiros craques da fé no Exterior, com forte presença nos Estados Unidos, no Canadá, no Japão, na Europa e na África. Como acontece com os atletas, não existe um dado oficial que aponte para o número exato de pastores pentecostais brasileiros pregando em terras estrangeiras. É certo, porém, que três igrejas evangélicas do ramo pentecostal (aquelas que crêem nos dons do Espírito Santo, como a cura e o poder de falar línguas estranhas) travam no momento uma batalha para abocanhar o título de maior multinacional brasileira da fé: a Universal do Reino de Deus, liderada pelo bispo Edir Macedo; a Internacional da Graça, do missionário Romildo Ribeiro Soares, o RR Soares; e a Deus é Amor, do missionário David Miranda. Além das três, ISTOÉ identificou outras 78 igrejas e 171 templos evangélicos verde-amarelos instalados nos EUA, no Canadá, na Europa e na África.
Sem muita publicidade, a Deus é Amor, fundada em 1962, já se instalou em 136 países. A Universal está em mais de 80. A igreja de RR Soares fincou raízes nos Estados Unidos, em Portugal, na Inglaterra e no Japão e, agora, prepara-se para inaugurar templos na Holanda, na França e em Angola. Nenhuma delas revela dados oficiais, como número de sedes, de pastores ou de fiéis. E, muito menos, o valor arrecadado lá fora. Não devem, no entanto, ser números desprezíveis, pois, para que a fé supere fronteiras, o investimento não é pouco. Além de se instalar fisicamente, esses líderes religiosos alugam espaços em satélites para transmitir suas pregações nos Estados Unidos, no Canadá, no Japão, na Europa, na África e no Oriente Médio. A Universal foi a primeira, por meio da Rede Record Internacional. Paga cerca de US$ 100 mil mensais pelo espaço em dois satélites da Intelsat, com os quais atinge toda a América e a África, há cinco anos, e o Japão há dois. Na África, obteve a concessão de uma geradora, a TV Moçambique, em UHF. A Internacional da Graça segue o mesmo rito e também está alugando o uso de um satélite. A Renascer em Cristo, do pastor Estevam Hernandez, já tem espaço no satélite 806 da Intelsat. A Deus é Amor segue outro manual e até proíbe seus fiéis de assistirem à televisão. Mas, na sua gigantesca sede mundial no Parque Dom Pedro II, na região central de São Paulo – que tem capacidade para seis mil pessoas –, há cinco mapas desenhados na parede listando os países das Américas, da Europa, Ásia, África e Oceania que, segundo a igreja, recebem a mensagem religiosa do programa de rádio A voz da libertação.
Exemplo americano – A quantidade de templos no Exterior permite tratar o Brasil como campeão da evangelização, título que já pertenceu aos americanos, que nas décadas de 50, 60 e 70 exportaram missionários evangélicos para todo o planeta. “Isso acontece por causa do chamado avivamento, ocorrido no Brasil. A busca pelas igrejas tem um grande crescimento. E não crescemos apenas para dentro, mas para fora também”, explica o pastor Ronaldo Didini. Ex-Universal e ex-Igreja da Graça, agora Didini está empenhado em montar sua própria igreja. Domingo 12, no Hotel Quality, em Lisboa, ele organizou o primeiro culto da Igreja do Caminho, recém-criada. O pastor, que se tornou nacionalmente conhecido ao apresentar o programa 25ª Hora, da Rede Record, é um especialista na abertura de templos e de rádios e tevês no Exterior. Fez isso para Edir Macedo, na Universal, e para a RR Soares, até meados deste ano. Abriu, assim, uma trilha que soma cada vez mais seguidores. Entre eles está a Sara Nossa Terra, criada em Brasília em 1992, que atraiu famosos como Baby Consuelo, o jogador Marcelinho Carioca e o vocalista Rodolfo (ex-Raimundos). Essa igreja mantém templos nos Estados Unidos – nas cidades de Atlanta, Harrison, San Diego e São Francisco – e na Bélgica, Holanda, Inglaterra e Portugal.
Adeptos da Assembléia de Deus criaram novos ministérios (subdivisões) e, na prática, assumiram igrejas independentes em países como Portugal e Estados Unidos. A Assembléia de Deus Ministério Semeadores de Boas Novas, por exemplo, está em Portugal, na Inglaterra e nos Estados Unidos e monta sedes na Suíça, Holanda e Liechtenstein. Existem ministérios como o Cristo Vive, nos Estados Unidos e na Espanha; World Revival (EUA); Missões, em Portugal; e a Assembléia de Deus Anglo-Brasileira (Inglaterra). Uma outra tem um nome sui generis: Assembléia de Deus de Londres em Lisboa, dirigida por um brasileiro, o pastor Wesley Alves.
Evangelização em família – Na World Revival, em Fort Pierce (Flórida), o responsável é o pastor Marcio Pereira, mineiro de Ipatinga, 38 anos, radicado no Estado americano há seis e pastor da igreja há três. A sede principal da World Revival fica em Pompano Beach. Pereira realiza dois cultos por semana, às terças e aos domingos, quando a igreja chega a receber 100 fiéis. A cidade tem 37 mil habitantes, 15% deles latinos ou hispânicos. Quando começaram as primeiras pregações, ainda na casa do pastor, apenas sua esposa e os dois filhos acompanhavam as orações. “Não tinha mais do que 20 ou 30 brasileiros na região. Mas, como há muito trabalho na construção civil, a região cresceu. E os brasileiros vieram para cá assentar azulejos ou pintar paredes”, conta o pastor. “Sempre recebo ligações de brasileiros de outras regiões que procuram emprego. Assim, espero que a igreja cresça também.” A World Revival funciona num prédio alugado e Pereira tem pedido ajuda aos fiéis para comprar o imóvel. Antes de montar sua igreja, o pastor trabalhou com outro colega, Francisco Pires. “Fui trabalhando e subindo”, comemora.
Outras igrejas como a Pentecostal Betania, de Fort Lauderdale, também na Flórida, vão se disseminando por outros países. O pastor que a dirige, Eronildes da Silva, empenha-se na formação de obreiros (auxiliares) em regiões da África e da Ásia onde se fala o português. Eronildes é um engenheiro mecânico pernambucano, que fala espanhol, inglês e alemão e já foi pastor em três Estados americanos – Connecticut, Massachusetts e Virginia – e nas cidades canadenses de Montreal e Quebec. Seu filho, o missionário Júlio da Silva, é líder da Assembléia de Deus em Pretória, na África do Sul. A filha, Vania da Silva, é coordenadora para língua portuguesa das Assembléias de Deus americanas. É uma família que evangeliza unida.
Pregação Eletrônica
Na esteira do sucesso de seu concunhado Edir Macedo – com quem fundou a Igreja Universal em 1977 –, RR, o missionário Romildo Soares, da Igreja da Graça, começa a montar seu império. Ele criou a Rede Internacional de Televisão (RIT), que, em apenas cinco anos de vida, já conta com cinco emissoras geradoras e 100 repetidoras em UHF e VHF em todo o Brasil. A RIT pode ser captada por 11 milhões de antenas parabólicas no País. RR também pretende lançar uma operadora de TV por assinatura em DTH, sistema semelhante ao da Sky e Direct TV, com 15 canais voltados para jornalismo, filmes e religião. A igreja já mantém espaço hoje no horário nobre da Rede Bandeirantes, adquirido por R$ 2 milhões.
A igreja Deus é Amor é dona de 20 emissoras de rádio no Brasil e de outras na Holanda, Inglaterra, Espanha e em Portugal. Possui 8.140 templos no Brasil e dedica especial atenção à internet: oferece Bíblia online e orações do missionário David Miranda em MP-3. A Universal, dona da Rede Record, já comanda 60 emissoras afiliadas e próprias no Brasil. Adquiriu recentemente uma TV em Atlanta, nos Estados Unidos, afiliada à rede Telemundo, dirigida à comunidade hispânica. Também comprou em Londres a Rádio Liberty, que pertencia ao empresário Mohamed Al-Fayed, pai do namorado da princesa Diana, Dodi Al-Fayed.

Mercado do Senhor
Segmento de artigos religiosos varia de CDs a roupas, fatura milhões e não conhece fronteiras.
A fé que move montanhas também permite bons negócios. O mercado de produtos religiosos não sabe o significado da palavra crise e se mantém nas alturas. No ano passado, as vendas de CDs, DVDs, livros, camisetas, entre outros produtos, registraram faturamento de R$ 1 bilhão. Só o segmento fonográfico, embalado pelo ritmo gospel, contabilizou R$ 500 milhões no ano passado . Os números são do grupo EBF-Eventos, empresa paulista que faz consultoria e pesquisas para o setor evangélico. “Esse mercado cresce sem parar. Afinal, todos os dias milhares de pessoas se convertem e mudam seus hábitos. Elas passam a comprar livros e até roupas produzidas pela indústria cristã”, afirma Maurício Berzin, presidente do EBF. Ele ressalta, porém, que não é só o público evangélico – 26,5 milhões de pessoas, segundo o Censo 2000 do IBGE – que promove a ascensão do mercado do Senhor. “Consumidores de todas as religiões compram nossos produtos. A música é o que mais agrada”, resume Berzin.
Uma pesquisa do Instituto Franceschini de Análise de Mercado, de São Paulo, confirma que a fé rende bons dividendos, pois mostra que hits evangélicos ocupam a terceira posição na preferência dos consumidores, deixando para trás o pagode, o samba e o sertanejo. As principais gravadoras evangélicas venderam, só no ano passado, mais de dez milhões de discos. Destaque para duas cantoras gospel, a carioca Cassiane Manhães e a mineira Ana Paula Valadão, que vendem, cada uma, até um milhão de cópias por lançamento.
O sucesso evangélico se estende também ao mercado literário. E, nesse segmento, a Bíblia é imbatível. O livro sagrado, segundo a Sociedade Bíblica do Brasil e a Câmara Brasileira do Livro, vendeu, só em 2003, mais de 12 milhões de exemplares. Não é por menos que todo o setor editorial evangélico registra cifras anuais superiores a R$ 280 milhões.
“Essa expansão se deve ao crescimento da população evangélica, que dobrou na última década, e ao salto de qualidade dos livros publicados por nossas editoras, que até ganharam prêmios de excelência gráfica”, explica Whaner Endo, diretor executivo da Associação Brasileira de Editores Cristãos (Abec). Segundo ele, em 2002 foram lançados 1,5 mil títulos com tiragem superior a dez milhões. São números que justificam eventos como a Expo Cristã, que se realiza em São Paulo. “Essa é a terceira edição da feira, que já se firmou como um grande balcão de negócios e oportunidades no Brasil e na América Latina. A expectativa para este ano é que sejam gerados negócios em torno de R$ 30 milhões”, afirma Eduardo Berzin, responsável pela organização da Expo Cristã.
Com valores tão expressivos, já são mais de 600 empresas trabalhando com artigos religiosos em todo o Brasil. No centro de São Paulo, uma rua inteira concentra mais de 300 lojas exclusivamente de produtos cristãos. Elas oferecem desde enfeite de geladeira até roupas, todas com mensagem de cunho evangélico. Esse mercado já ultrapassa fronteiras. Boa parte das empresas cristãs exporta seus produtos para diversos países. Uma delas é a editora paranaense Luz e Vida, que há 50 anos se dedica à produção de material escolar, camisetas, agendas, livros, marcadores de páginas e mais 800 itens. O sucesso deve-se à figura de uma simpática formiguinha batizada de Smilingüido, grife que ilustra todos os produtos. Esse personagem, sucesso no Brasil, mantém os negócios da empresa em alta. Só a venda de marcadores de páginas contabiliza um milhão de unidades por mês. “Nossos produtos são comercializados em mais de cinco mil pontos pelo Brasil. Traduzidos para o inglês e o espanhol, são exportados para Europa, Estados Unidos, Japão, México e países africanos”, conta Samuel Eberle, superintendente da editora. Em 2003, suas exportações somaram R$ 10 milhões.


Matéria originalmente publicada na edição de 22/09/2004 da Revista Isto é.

 
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